| 17 | Quando eu vim ao mundo (SP 450) Quando eu vim ao mundo, O céu chorou minha partida, E as ruas de São Paulo, Viraram rios, E moleques morreram afogados, Nas ruas alagadas da periferia, Quase madrugada, Começava o dia, Mamãe de guarda-chuva na mão, Entrou no hospital ansiosa, E com fome na hora do almoço, Perguntava por que eu não saia, "Eu não me entrego fácil, Se querem ver minha cara, Vão Ter que esperar minha vontade" Mas a luta não era equilibrada, E o fórceps da medica de unhas longas, E cara de má, Me jogou chorão neste mundo de Deus, E eu chorei com cidade, E a metrópole chorou por mim. Neste dia meu avô perguntou : "Mas não tinha que Ter, no mínimo, nove meses de casamento ?" E minha avó riu... Meu pai, Dezenas de tios, Centenas de vizinhos, E eu ali... Branco como uma cicatriz, Com grandes faróis azuis na cara, Sorrindo e chorando, Conforme meu bel prazer. Contra todas as expectativas, Da minha imensa torcida, Eu nada me tornei. Passou o tempo e mil vezes, São Paulo chorou... Quando eu me cai, Quando eu me feri, Quando eu fui repreendido, Quando apanhei na escola, Quando eu apanhei em casa, Quando eu não soube a matéria, Quando eu soube demais, E chorou... Quando eu parti, de saudade, Quando eu voltei, de alivio, Quando eu fracassei, de desapontamento, Quando eu triunfei, de orgulho, Quando meu primeiro filho, Branco como um véu de noiva, Chorou de longe... Quando veio o segundo, De tão vivos olhos, Chorou de longe, Quando veio o terceiro, Tão pequenino, Chorou de longe. Chorou demais comigo, Quando o primeiro amor, Não era mais amor, Quando o segundo, Era amor demais, Quando eu mesmo, Não conseguia me amar. Hoje chora ainda, Chora a saudade de mim... |